Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.
Histórias do Cotidiano
Por que escrever sobre o que parece pequeno
Ninguém acorda pensando que vai viver uma grande história naquele dia.
A maioria de nós acorda pensando no café, no horário, na mensagem que não chegou, na dorzinha que apareceu sem pedir licença. E, mesmo assim, é ali — nesse território aparentemente banal — que a vida acontece.
O cotidiano não grita.
Ele cochicha.
Ele se esconde na conversa atravessada na cozinha, no silêncio desconfortável do elevador, na alegria inesperada de uma tarde comum. O extraordinário raramente vem com trilha sonora. Geralmente vem disfarçado de rotina.
Escrevo porque observo.
E observo porque já vivi o suficiente para saber que o que parece pequeno costuma ser imenso — só não faz alarde.
Este livro não é sobre feitos heroicos nem sobre finais cinematográficos. É sobre gente de verdade, dias comuns, pensamentos que surgem enquanto a água ferve e o mundo continua girando sem perguntar se estamos prontos.
Talvez você se reconheça em algumas páginas.
Talvez ria de situações que também já viveu.
Talvez se irrite — o que é um bom sinal. Significa que algo tocou.
Se, ao final de uma crônica, você pensar: “isso já aconteceu comigo”, então o texto cumpriu seu papel.
Porque no fundo, escrever sobre o cotidiano é só uma maneira elegante de dizer:
eu vi você ali.
A Casa Fala
A casa nunca fica em silêncio.
Mesmo quando não há ninguém, ela estala, suspira, reclama em rangidos discretos. Mas quando a gente está dentro, aí ela se sente autorizada.
A casa observa.
Ela sabe exatamente quem somos pelo jeito que largamos a bolsa, pelo sapato jogado sem culpa, pela cadeira que virou depósito oficial de roupas “nem sujas, nem limpas”. A casa não julga — mas registra.
Há dias em que a casa está mais organizada do que a alma.
E dias em que a bagunça faz sentido, porque é ali que a vida passou apressada.
As paredes escutam conversas que não se repetem.
A mesa conhece histórias que nunca chegam à sala.
O banheiro é confidente de decisões importantes, tomadas entre um banho e outro, como se a água tivesse poderes esclarecedores.
Arrumar a casa às vezes é só um jeito educado de adiar o que realmente precisa ser enfrentado. A gente dobra roupas tentando colocar ordem em pensamentos que insistem em ficar amassados.
E mesmo assim, no fim do dia, a casa acolhe.
Não pergunta. Não cobra. Apenas abre espaço.
Talvez por isso doa tanto quando a gente muda.
Não é só o endereço que fica para trás — é alguém que nos conhecia bem demais.
Entre Entregas e Desencontros
Entre as festas de fim de ano, a casa virou cenário, personagem e testemunha do desconcerto.
As cortinas não chegaram.
Os presentes também não.
A decoração de Natal apareceu apenas na última semana — já cansada, como quem chega atrasada a uma festa que ninguém mais anima.
A toalha do Natal chegou para o Ano-Novo.
A do Ano-Novo acabou na mesa do Natal.
As datas se embaralharam como guardanapos mal dobrados, e a casa tentou manter a compostura enquanto o calendário fazia pouco caso.
Hoje é dia 8.
E ainda aguardo entregas de presentes de Natal.
E, com a mesma serenidade forçada, aguardo o presente de aniversário da Jô — que foi no Dia de Reis, data simbólica, cheia de significado… mas aparentemente irrelevante para a logística moderna.
A casa sentiu tudo.
Sentiu o improviso, o desencaixe, o esforço de fazer clima festivo com o que havia — e, principalmente, com o que não havia. Porque a ausência também decora.
Entre caixas que não chegaram e expectativas que chegaram cedo demais, o mal-estar se instalou educadamente. Não fez escândalo. Apenas ocupou espaço, como um móvel fora de lugar que ninguém sabe onde pôr.
No fim, celebramos assim mesmo.
Com toalhas trocadas, presentes imaginados e uma certa ironia no olhar. Porque amadurecer talvez seja isso: entender que a vida não respeita cronogramas promocionais — e que nem tudo que é entregue vem no prazo prometido.
A casa aprendeu.
E anotou tudo.
A Arte de Improvisar (Versão Natalina)
Improvisar é uma arte que ninguém aprende por vontade própria. A gente é obrigado. E, quando percebe, já está chamando de “estilo”.
A Tuia holandesa começou a secar em silêncio, carregando bolas e lâmpadas coloridas como quem sustenta expectativas demais. Dia após dia, foi perdendo o verde com dignidade, enquanto tentávamos fingir que aquilo fazia parte da proposta estética. Natal orgânico. Minimalista. Conceitual.
A árvore artificial não chegou a tempo.
Chegou a promessa. A notificação. O “saiu para entrega”.
A árvore, não.
Então improvisamos.
Redistribuímos enfeites, diminuímos luzes, reposicionamos esperanças. A casa ajudou como pôde, aceitando que aquele canto ficaria mais simbólico do que festivo. A Tuia, já meio cansada, fez o possível. Segurou as bolas até onde deu.
Por medo de perder a árvore que deveria ir para o jardim, resolvi poupar o que ainda restava. Deixei passar o Natal. Desmontei com cuidado e a coloquei do lado de fora, na calçada, como quem oferece ar fresco depois de um esforço excessivo.
Agora seguimos tentando mantê-la verde.
Há regras. Horários. Observação constante. Uma diplomacia silenciosa entre culpa e esperança. Porque quem ama plantas sabe: elas sentem. E a gente conversa com elas fingindo que é só rega.
Celebramos assim mesmo.
Com uma árvore que quase não foi.
Com um Natal deslocado.
Com a certeza de que cuidar, às vezes, é desmontar antes do tempo.
A casa entendeu.
A Tuia agradeceu.
E a vida, como sempre, seguiu sem consultar o calendário.
A Festa que Não Acabava
Quando achávamos que o Natal tinha sido desmontado, guardado em caixas e emocionalmente superado, veio o Dia de Reis. E com ele, um aniversário. Porque a vida, quando percebe que estamos cansados, costuma insistir.
Já não havia mais surpresa. Havia cardápio.
E cansaço.
Depois de tantos pratos diferentes, a cozinha entrou em estado de sobrevivência. Panelas olhavam para nós com desconfiança. A casa, solidária, reduziu as expectativas.
O aniversário aconteceu entre sobras nobres e entusiasmo moderado. Já não se cozinhava por alegria, mas por compromisso. Alimentar pessoas virou um esporte de resistência.
Até o bolo sofreu.
Não por falta de amor, mas por excesso de realidade.
O bolo de aniversário não encontrou seu momento. Virou bolo gelado, promovido para outra ocasião. Um bolo com futuro, mas sem data definida.
Encerramos as festividades com dignidade e sinais claros de exaustão. Brindamos com a convicção de que janeiro precisava começar — urgente — nem que fosse no meio do mês.
As festas acabaram.
O bolo espera.
E o cotidiano, finalmente, voltou para casa.
Janeiro Chegou com Protocolo
Janeiro não chega devagar. Ele entra pedindo comprovante, número de pedido e paciência.
Enquanto o mundo anuncia recomeços, a casa ainda negocia o passado recente. Há tarefas extras: recuperar compras que teoricamente já deveriam ter chegado. A vida adulta, em janeiro, envolve menos resoluções e mais atendimento automático.
As cortinas, só agora, finalmente são trocadas. A casa abandona o figurino e veste o uniforme do dia a dia.
Os compromissos retomam seu espaço: cursos preventivos contratados, consultas agendadas, datas anotadas com seriedade quase terapêutica.
E, entre uma ligação e outra, ainda rimos, abrindo presentes que continuam chegando — fora de época, deslocados, mas ainda assim presentes.
Janeiro não tem fita, nem brilho.
Mas tem organização, consciência e a graça discreta de perceber que nem todo começo começa no dia primeiro.
O Dia em que Nada Aconteceu
Nada aconteceu.
E foi um dia cheio.
Acordei sem urgência, mas com responsabilidades. O café passou enquanto pensamentos se organizavam sozinhos.
As plantas pediram água com uma elegância silenciosa.
O almoço aconteceu sem fotografia. Foi bom.
À tarde, cumpri tarefas que não rendem história, mas sustentam todas as outras.
Anoiteceu sem aviso.
A casa se recolheu comigo.
Nada aconteceu.
E foi um dia inteiro de vida acontecendo do jeito mais honesto possível.
O Andamento Interno
O cotidiano agora acontece por dentro.
As orações ganharam espaço maior. Cuidar do corpo virou linguagem: da pele, da alimentação, do descanso.
Compromissos desnecessários perderam o apelo. O “não” passou a ser dito com calma.
Tirar férias, agora, não é ir embora.
É ficar.
Praia e viagens podem esperar. Lá por março, quando o ano começa de verdade.
Por enquanto, o compromisso é interno.
Tempo de Fazer
Depois de observar, improvisar, cansar, rir e recolher, chega o tempo de fazer.
Fazer arte. Pintar, criar, aceitar o ritmo do processo.
Escrever voltou a ser gesto.
As metas existem, mas não gritam. Cabem no ano inteiro.
Não é sobre fazer mais.
É sobre fazer melhor.
O tempo de fazer chegou.
E ele começa quando tudo desacelera.
Se Você Chegou Até Aqui
Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este livro não tentou ensinar nada diretamente. Ele apenas contou.
A lição — se existe — está no olhar: rir do improviso, respeitar o cansaço, cuidar do que é vivo.
Que este livro sirva para desacelerar o olhar e devolver dignidade aos dias normais.
A vida não exige tanto quanto dizem.
Ela só pede que a gente esteja.




